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Nossa posição na crise mundial

Há exatos 6 meses, em outubro de 2008, publicávamos, nesta mesma Newsletter, um artigo a respeito da crise gerada pelo revés da economia dos Estados Unidos. Na ocasião, o mundo ainda sentia os primeiros efeitos da onda negativa que advinha da maior economia do planeta. O problema se evidenciava como bastante sério, mas não era possível, ainda, projetar de forma precisa qual seria a extensão das consequências.

Os economistas das diversas vertentes divergiram bastante, no que se refere aos cenários que projetaram. Alguns anteviram uma crise similar à de 1929. Outros, apenas um resfriado da economia mundial, que logo passaria.

Mesmo os mais otimistas, porém, sabiam que haveria uma contaminação de vários dos efeitos nocivos da crise por todos os países do mundo.

A globalização, que permitiu que o crescimento sem controle ocorrido durante quase toda a década fosse sentido fortemente em todos os continentes, à exceção da África, teve o mesmo efeito no momento da crise, com o vetor invertido. A forte freada da economia americana logo se espalhou por todo o mundo.

O que, inicialmente, era uma crise da economia dos EUA, gerada pelos seus descontroles internos - desequilíbrios no mercado imobiliário, na política fiscal, no controle dos ativos financeiros -, logo se transformou em uma crise mundial. Simplesmente inevitável.

Apesar de estar bem mais bem preparado para enfrentar uma crise externa do que em outras épocas, o Brasil, naturalmente, não pôde passar incólume. Nossa blindagem, calcada em reservas cambiais superiores a US$ 200 bilhões, impediu que nossa solvência fosse ameaçada. Não houve, desta vez, nenhuma crise de confiança sobre nossa economia.

O mesmo se pode afirmar, aliás, sobre o conjunto das mais importantes economias emergentes. Rússia, Índia e China, em escalas ainda superiores à do Brasil, souberam aproveitar os anos de bonança para fortalecer suas blindagens.

Esse fortalecimento, no entanto, não teve como garantir que a economia real passasse ao largo dos problemas. Apesar de todas as bravatas oficiais de que sentiríamos apenas uma “marolinha”, todos os números mostram que a desaceleração foi forte. A queda do PIB no último trimestre de 2008, de 3,6%, foi sintomática. É certo que, por questões sazonais, o PIB do quarto trimestre costuma ter uma evolução negativa, em relação ao trimestre anterior. A magnitude da variação é que assustou. Ela foi, do ponto de vista histórico, extremamente significativa.

O desaquecimento de nossa economia teve como principal causa a queda nas exportações. Logo elas, que ao longo dos anos anteriores foram a mola propulsora de nossa economia. Logo elas, que foram o elemento vital para que nossas reservas cambiais atingissem o maior volume de toda a história.

Era de se esperar, contudo, que as exportações caíssem. O comércio mundial se retraiu como poucas vezes antes havia ocorrido. Nossos produtos continuaram competitivos, mas os compradores é que desapareceram.

Pela primeira vez em muitos anos, o país começou um ano preocupado com a ocorrência de déficits na balança comercial.

Como a economia está toda encadeada, como um conjunto de elos que têm de caminhar juntos para o mesmo lado, a retração de alguns setores logo atinge outros. A economia funciona à base desses efeitos-dominó. E o principal indicador que desperta a preocupação de todos, agora, é o desemprego, que não para de crescer desde o final do ano passado.

Poucos indicadores têm a capacidade de mexer com a estabilidade do tecido social como o desemprego. E ele virou realidade em muitos dos lares brasileiros, independentemente de classe social. Ele vem atingindo desde o primeiro escalão das grandes empresas até o chão de fábrica.

Se a economia real vem, de fato, padecendo, ao menos o Brasil conseguiu tangenciar um outro risco que veio junto com a crise, que foi o recrudescimento da inflação. A disparada instantânea que a taxa de câmbio apresentou logo nos primeiros momentos da crise colocou em risco a estabilização do real. Houve um sério risco de aumento dos preços dos produtos importados e de seus concorrentes diretos. Temeroso deste risco, uma das primeiras ações do Banco Central no começo da crise foi aumentar as taxas de juro.

O efeito da contenção da demanda provocado pela desaceleração da economia foi mais forte, porém, do que a pressão inflacionária causada pela desvalorização do real. Apesar do aumento no valor do dólar, a inflação não só ficou sob controle como ainda caiu. Atualmente, está em torno de 6% ao ano, e as perspectivas são de que fique ainda menor. Esse é um dos maiores motivos pelos quais o BC inverteu sua atuação e reduziu fortemente os juros na última reunião do Copom, com perspectiva de repetir a manobra nas reuniões seguintes. A tendência do juro é de queda, apesar de ainda não termos como nos posicionar nos mesmos patamares de outros países do mundo.

Um dos principais fatores que nos impedem de alcançar uma taxa de juros condizente com o nível internacional é nossa política fiscal irresponsável. O Governo gasta muito, gasta mal e gasta cada vez mais. Esse problema foi administrado nos últimos anos através do aumento sucessivo na arrecadação de impostos. O superávit primário sempre foi garantido às custas do contribuinte. Com a crise econômica, porém, a fonte secou. Com a queda no movimento da economia, caiu também o volume pago de impostos e, com isso, o Governo acusa sensíveis reduções na arrecadação tributária, fazendo com que nossas metas fiscais estejam em sério risco. Não há nenhuma sinalização política, no entanto, de que isso vá fazer com que haja mais responsabilidade do trato dos gastos do Governo. Ainda mais em ano pré-eleitoral. Com as contas públicas combalidas, a taxa de juros continuará sofrendo uma pressão extrema como ponto estabilizador da política econômica. Continuará a ser o Judas malhado e execrado por toda a sociedade. Mas, como sempre foi, seguirá sendo uma consequência da má utilização, pelo Governo, da outra ferramenta vital para o controle macroeconômico, que é a política fiscal.

Os governos das maiores economias do mundo vêm atuando, de forma conjunta, no sentido de injetar quantidades maciças de recursos para reativar o desempenho do setor privado. Essas quantias são estratosféricas. Já passaram, no agregado, da casa do trilhão de dólares. Algo simplesmente inimaginável há 1 ano. Chegou-se a esta cifra – ainda parcial, pois pode ficar maior – não por conta da benevolência e desejo de gastar dos governos, mas da falta de reação da economia às primeiras centenas de bilhões de dólares injetados. Foi realmente impressionante como os governos, em especial o dos EUA, não conseguiram efeitos positivos com anúncios de injeções multibilionárias. Isso evidenciou a gravidade da crise e a necessidade de uma ação conjunta.

Apesar da sinalização de que os principais governos do mundo estão dispostos a trabalhar conjuntamente e não repetir os erros da crise de 1929, ainda é cedo para comemorar. Assim como no começo da crise, ainda agora os economistas divergem com relação ao questionamento sobre se o pior já passou. Pode já ter passado, mas não há nenhuma garantia em relação a isso.

Mesmos os otimistas, que acreditam que a economia mundial deve começar a se recuperar a partir de agora, não escondem sua preocupação com os efeitos a longo prazo da ação que está sendo aplicada agora pelos governos. A injeção de tanto dinheiro novo pode não ser um risco enquanto as economias estiverem tão deprimidas. Quando houver o reaquecimento, porém, ninguém sabe ao certo quem vai pagar a conta. O maior risco, de fato, é da aceleração da inflação em caráter mundial.

Enquanto o longo prazo não chega, porém, a tendência dos governos é sustentar sua política de salvamento de empresas de porte, como a AIG e a GM. Ninguém quer um novo solavanco de desconfiança, tal qual ocorreu com a quebra do Lehman Brothers, estopim da crise.

Como previsto, os efeitos da crise sobre o setor educacional privado ainda são parciais e bem pontuais. Ela não teve nenhum impacto no volume de alunos matriculados para 2009. As famílias não deixaram que o novo cenário influenciasse nessa decisão. Os efeitos indiretos, que eram os mais temidos, ainda não atingiram o setor de forma generalizada. A inadimplência média está um pouco mais alta em 2009 do que estava em 2008, mas o aumento não é substantivo – e ainda é cedo para conclusões definitivas a respeito. Quanto às bolsas, houve tanto casos de escolas que aumentaram quanto que diminuíram o percentual de concessão. O percentual médio concedido não subiu. Há relatos individuais de aumento de pedidos, mas ainda de forma pontual.

Como em outras crises, também nessa o setor do ensino privado tem um timing mais lento de contaminação. Espera-se que ele venha a se manifestar ao longo do ano, mas, principalmente, nas rematrículas para 2010. É com este cenário que as escolas devem fazer seu planejamento estratégico.